Angola: reformas e sonhos adiados põem governo de costas viradas com FMI:nova grande recessão económica em 2021?

Washington D.C- Rádio Angola Unida (RAU) – 193ª Edição do programa “7 dias de informação em Angola, apresentado no dia  dia 29-10-2020, por Serafim de Oliveira com análises e comentários de Carlos Lopes – escute aqui:

  • Angola assinalou 45 anos da independência do país e estava prevista a realização de uma manifestação, organizada por um grupo de jovens ativistas, para exigir melhores condições de vida e a marcação de uma data para as primeiras eleições autárquicas. O ativista angolano Luaty Beirão recebeu esta quarta-feira ordem de detenção pela polícia quando transmitia em direto a caminhada para uma das manifestações em Luanda, no dia em que se assinalam os 45 anos da independência do país. Nos segundos finais do vídeo que estava a ser transmitido em direto pelo Facebook, dois polícias aproximam-se do ativista, que tem também nacionalidade portuguesa, e, depois de Luaty dizer que não vale a pena tirarem o telefone porque está a ser transmitido pela internet, pedem-lhe para os acompanhar à esquadra, ao que o ativista pergunta se está a ser detido e um dos polícias responde: “Está detido”. Nos segundos a seguir, o ativista vira-se para trás, tentando falar aos que o acompanhavam, mas a transmissão é interrompida, ouvindo-se a voz de Luaty a dizer que o polícia está a tirar-lhe a câmara. Activistas Nito Alves e Laurinda Gouveia entre os muitos feridos. A Polícia Nacional (PN) de Angola reprimiu vários grupos que pretendiam avançar, a partir de diferentes bairros em Luanda, para uma manifestação contra o desemprego e a a favor da realização das eleições autárquicas em 2021, nesta quarta-feira, 11, dia em que se assinala o 45º aniversário da independência nacional. Com um sol ardente, a efeméride está a ser celebrada com uma chuva de protestos de milhares de jovens que, entretanto, foram reprimidos pela PN com gás lacrimogéneo. Os agentes bloquearam as imediações da Fábrica de Tabacos Unificados (FTU) e da Avenida Brasil que dão acesso ao Largo da Independência, onde os manifestantes pretendiam concentrar-se. Há relatos de vários feridos, entre eles os conhecidos activistas Nito Alves e Laurinda Gouveia, que terão sido espancados pelos agentes da PN. O correspondente da Reuters em Angola foi agredido pela polícia e viu o seu material de trabalho destruído, durante a tentativa de uma manifestação organizada por jovens ativistas para reclamar melhores condições de vida. A informação foi avançada à Lusa pelo próprio jornalista, que diz ter sido detido por alguns minutos pela polícia, apesar de ter se identificado, entretanto solto alguns instantes depois. “Estava identificado, mostrei o meu passe, levantei as mãos, mesmo assim eles partiram para agressão, quase partiam a câmara e detiveram-me por alguns minutos”, disse Lee Bogotá, que ficou com marcas no corpo devido às agressões. Lee Bogotá descreveu que estava no meio da manifestação, tentou falar com os polícias e depois disso começou a ser atacado, tendo ficado sem as câmaras fotográfica e de vídeo e o microfone.
  • O diretor da consultora EXX Africa disse à Lusa que as reformas em Angola poderão ser adiadas devido à crise económica e aos protestos violentos das últimas semanas, o que afeta as relações com o FMI. “Acrise económica e os protestos violentos que originou vão aumentar a pressão sobre o Governo de Angola para atenuar as reformas definidas com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e as medidas de austeridade”, disse Robert Besseling quando questionado pela Lusa sobre se a crise propicia ou dificulta a implementação das reformas. Os recentes casos de corrupção, a falta de empenho na transparência e a falta de reformas no setor bancário vão prejudicar as relações com o FMI e adiar a implementação da agenda reformista”, acrescentou o responsável, na semana em que se assinalam os 45 anos da independência do país. Nas declarações à Lusa, o diretor desta consultora sedeada em Joanesburgo considerou que a privatização dos ativos não petrolíferos está “parada devido à falta de interesse dos investidores” e avisou que isso “prejudica a diversificação económica”. Os investimentos privados, notou, “são principalmente direcionados para o setor petrolífero, como os 920 milhões de dólares [775 milhões de euros] para a refinaria petrolífera de Cabinda, que estão a ser financiados de forma opaca pela Gemcorp numa altura em que o preço do petróleo ainda está abaixo do ‘break-even’ [ponto de início do lucro]”. Questionado sobre a evolução da economia de Angola nos próximos anos, em que a maioria dos analistas prevê um regresso ao crescimento económico positivo depois de cinco anos de recessão, Robert Besseling lembrou a recente sondagem feita pela EXX Africa, que mostra que 60% dos angolanos estão pessimistas sobre o país. “Apesar de o FMI antever uma modesta recuperação económica no próximo ano, os angolanos estão pessimistas; a elevada inflação e o desemprego massivo são as principais preocupações para muitos angolanos, numa altura em que a agenda de privatizações do Governo está parada devido à pandemia e continua vulnerável a interferências políticas, o que está a manter os investidores estrangeiros relutantes em investir nos ativos angolanos”, concluiu o analista.
  • A Câmara de Energia Africana (CEA) alertou hoje que os preços baixos do petróleo podem originar atrasos na exploração de novos poços em África e particularmente em Angola e defendeu um novo regime fiscal para atrair investidores. “A maioria dos projetos que estava pronto para aprovação foi planeado assumindo um preço de 55 a 60 dólares por barril, por isso o facto de o preço rondar atualmente os 40 dólares significa más notícias, principalmente porque as principais decisões de investimento precisam do preço nos 45 dólares para dar lucro [‘breakeven’], e alguns até nos 60 dólares”, lê-se no relatório sobre Perspetivas da Energia em África. No relatório da CEA com o apoio técnico da Rystad Energy, enviado esta tarde aos investidores, os especialistas escrevem que “a ENI e a ExxonMobil já disseram que vão focar-se no desenvolvimento de projetos com um preço de ‘breakeven’ menor que 35 dólares e o desenvolvimento do poço Agogo em Angola enfrenta um adiamento devido ao seu preço de 45 dólares por barril”. Além deste, os poços marginais Palas, Astraea e Juno operados pela BP em Angola podem também “ser adiados devido ao preço relativamente alto de ‘breakeven’, aos compromissos da BP noutras partes do mundo e à transição energética”. Os atrasos decorrentes da redução da procura mundial de combustíveis devido à pandemia, num contexto de preços já de si reduzidos face à média dos últimos anos, teve um impacto muito significativo nos países exportadores de petróleo, como Angola ou a Guiné Equatorial, que dependem da venda desta matéria-prima para equilibrarem o orçamento e financiarem o desenvolvimento económico.
  • Para Costa Silva, nascido no planalto central angolano, fundador e membro dos comités Amílcar Cabral, que apoiavam o MPLA (Movimento Popular para a Libertação de Angola) e contestavam o regime colonial, Angola atravessa, 45 anos depois da sua independência, um período difícil “com seríssimos riscos de instabilidade política e social”. “A combinação do declínio das receitas petrolíferas, deterioração da situação económica do país, as expectativas que podem não ser preenchidas, ou totalmente preenchidas, na luta contra a corrupção, cria uma combinação tóxica”, explicou o gestor, autor do documento-base para o plano de recuperação da economia portuguesa para 2020-2030 e especialista na área do petróleo. Trata-se de um contexto no qual o Presidente da República precisa “não só de resiliência e resistência, mas de alguns rasgos em termos da política interna, que se não forem efetuados podem conduzir a uma grande instabilidade social e política”, defendeu.
    RAU – Rádio Angola Unida – Os programas da Rádio Angola Unida (RAU) são apresentados e produzidos em Washington D.C.Perguntas e sugestões podem ser enviadas para Prof.kiluangenyc@yahoo.com

Author: angolatransparency

-Impulsionar os cidadãos angolanos a questionarem como o erário público é gerido e terem a capacidade de responsabilizar os seus maus gestores de acordo com os princípios estabelecidos na Constituição da República --Boost the Angolan citizens to question how the public money is managed and have the ability to blame their bad managers in accordance with the principles laid down in the Constitution of the Republic-------------- Prof. N'gola Kiluange (Serafim de Oliveira)

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